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	<title>Convidados &#8211; O Barato no Divã</title>
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	<title>Convidados &#8211; O Barato no Divã</title>
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		<title>Pontos nada Cardeais: uma geografia sensível a partir do Dicionário Amoroso da Psicanálise.</title>
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		<dc:creator><![CDATA[O Barato no Divã]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 26 Jan 2022 19:30:37 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>ROUDINESCO, Elisabeth Dicionário Amoroso da Psicanálise, tradução André Telles, Rio de Janeiro, 2019.Traduzido de Dictionaire amoureux de lá psychanalyse, Paris, Éditions Plon/Seuil, Paris, 2017. Cidades brasileiras 136 tons de pele Bem mais que nas outras regiões do mundo, as cidades brasileiras foram o receptáculo de todas as contradições possíveis da psicanálise. Nesse país que aglutina [&#8230;]</p>
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<p>ROUDINESCO, Elisabeth Dicionário Amoroso da Psicanálise, tradução André Telles, Rio de Janeiro, 2019.<br>Traduzido de Dictionaire amoureux de lá psychanalyse, Paris, Éditions Plon/Seuil, Paris, 2017.</p>



<figure class="wp-block-image alignleft size-full is-resized"><img fetchpriority="high" decoding="async" src="https://obaratonodiva.com.br/wp-content/uploads/2022/01/o-barato-no-diva-pontos-nada-cardeais3_1.jpg" alt="" class="wp-image-3709" width="303" height="255"/><figcaption><em>Rio de Janeiro 1925</em></figcaption></figure>



<p><strong>Cidades brasileiras 136 tons de pele</strong></p>



<p style="font-size:15px">Bem mais que nas outras regiões do mundo, as cidades brasileiras foram o receptáculo de todas as contradições possíveis da psicanálise. Nesse país que aglutina vários países, as cidades desempenharam um papel considerável na expansão de todas as correntes da psicanálise. Todas reivindicam identidade própria, não obstante encontremos características comuns em cada uma delas. Nessas cidades &#8211; Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, Porto Alegre, Campinas, Belo Horizonte -, tive uma acolhida calorosa e sempre me surpreendeu a paixão com que, há diversas gerações, os brasileiros das grandes cidades se interessam não só por todas as formas de psicoterapia e medicina da alma, como também por sua história e a história mundial da psicanálise. Tudo se passa como se sua curiosidade pela alteridade os impelisse cada vez mais a compreender e escutar as diferenças culturais. Uma pesquisa listou no Brasil 136 tons de pele: brancas, negras, pardas, oliva, morenas, amarelas, indefiníveis. Nada mais estimulante do que dar conferências nas cidades brasileiras perante um público entusiástico, atento e generoso. Em cada cidade, existem dezenas de associações psicanalíticas, inúmeros institutos de ensino e iniciação à clínica. Quanto aos terapeutas, interrogam-se tanto sobre os distúrbios psíquicos &#8211; coletivos ou individuais &#8211; como sobre a maneira de abordá-los nos meios sociais mais pobres, em especial nas favelas.</p>



<p><strong>Cidades brasileiras</strong></p>



<p>Em todas essas cidades sinto-me em casa, e a cada périplo encontro os mesmos amigos, minha editora Cristina Zahar e meus ex-doutorandos, agora professores, que também encontro no mês de janeiro, em Paris. Pois é durante o inverno europeu que os brasileiros vão ao estrangeiro. Os que conheço e amo viajam muito e falam várias línguas – Ana Maria Gageiro, Catarina Koltai, Marco Antônio Coutinho Jorge, Paulo Ceccarelli –, adoram frequentar os bistrôs parisienses, passar noites inteiras trocando ideias e participar de seminários na universidade. Como muitos latino americanos, são elegantes e corteses, preocupados com sua aparência e seu corpo, atentos à beleza das peles, da mais clara à mais morena. Atravessam com facilidade as fronteiras, apreciam a estética das “passagens” tão bem descritas por Walter Benjamin. Gostam de flanar, de jantares festivos, passeios, presentes, de cultivar a autoestima. Gosto dos psicanalistas brasileiros, aprecio seu saber clínico, suas qualidades terapêuticas, seu pragmatismo, sua curiosidade insaciável, sua capacidade de fazer a cultura freudiana viver e de zombar sutilmente da arrogância com que seus pares franceses continuam a tentar colonizá-los, tomando-se por gurus. </p>



<figure class="wp-block-image alignright size-full is-resized"><img decoding="async" src="https://obaratonodiva.com.br/wp-content/uploads/2022/01/o-barato-no-diva-pontos-nada-cardeais3_2.jpg" alt="" class="wp-image-3710" width="289" height="324"/><figcaption><em>Rio de Janeiro 2022</em></figcaption></figure>
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		<title>Pontos nada Cardeais III</title>
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		<dc:creator><![CDATA[O Barato no Divã]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 05 Dec 2021 14:24:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Convidados]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Uma geografia sensível a partir do Dicionário Amoroso da Psicanálise. ROUDINESCO, Elisabeth Dicionário Amoroso da Psicanálise, tradução André Telles, Rio de Janeiro, 2019.Traduzido de Dictionaire amoureux de lá psychanalyse, Paris, Éditions Plon/Seuil, Paris, 2017. Cidade do México O mexicano não é uma essência, mas uma históriaNesse país que cultivava laços importantes com o império dos [&#8230;]</p>
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<p>Uma geografia sensível a partir do Dicionário Amoroso da Psicanálise.</p>



<p>ROUDINESCO, Elisabeth Dicionário Amoroso da Psicanálise, tradução André Telles, Rio de Janeiro, 2019.<br>Traduzido de Dictionaire amoureux de lá psychanalyse, Paris, Éditions Plon/Seuil, Paris, 2017.</p>



<p>Cidade do México</p>



<p>O mexicano não é uma essência, mas uma história<br>Nesse país que cultivava laços importantes com o império dos Habsburgo, especialmente no momento da trágica expedição do imperador Maximiliano (1864-67), a psicanálise nunca se constituiu em verdadeiro movimento, ainda que alguns atores, pitorescos, tenham desempenhado ali um papel importante, como Erich Fromm, oriundo de uma família judia alemã, emigrado para os Estados Unidos, depois radicado na Cidade do México em 1950, ou Igor Caruso, vindo de Viena, e Santiago Ramírez, pai fundador da primeira sociedade psicanalítica mexicana. Admirador de Benito Juárez, laico e jacobino, Ramírez se casou com uma católica fervorosa que venerava as valsas de Viena.</p>



<p>Foram sem dúvida essa situação particular e os tumultos da revolução de 1910 que fizeram do México a Terra Prometida de diversas experiências inéditas. Atesta isso, se necessário, a do mosteiro de Cuernavaca. Sempre que vou à Cidade do México, me impressiona a multiplicação dos grupos de terapeutas, cada qual reivindicando uma linha, todos muito dinâmicos e ao mesmo tempo politicamente engajados na vida social dessa megalópole barroca. A psicanálise mexicana lembra um poema de Octavio Paz: &#8220;Toda cultura nasce da mistura, do encontro, dos choques. No caminho contrário, é do isolamento que morrem as civilizações.”</p>



<p>O que me fascina nessa cidade gigantesca e extremamente violenta é efetivamente essa mistura entre diversas heranças que convivem: a da cultura pré-colombiana e do período colonial, e aquela, muito mais próxima, do período do entreguerras. Não imagino ir à Cidade do México sem visitar os lugares que me lembram a história do exílio de Leon Trotski e de sua amizade com dois dos maiores pintores da modernidade latino-americana: Diego Rivera e Frida Kahlo. Sei que, em caso de perigo maior, poderia exilar-me nessa megalópole. Meu amigo Helí Morales, grande admirador de Trótski e dos nós borromeanos de Lacan, sempre me disse que sua casa, parecida com a de Frida, era minha. Hospitalidade incondicional.</p>



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		<title>Pontos nada Cardeais II</title>
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		<dc:creator><![CDATA[O Barato no Divã]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 03 Nov 2021 20:27:31 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Uma geografia sensível a partir do Dicionário Amoroso da Psicanálise. ROUDINESCO, Elisabeth Dicionário Amoroso da Psicanálise, tradução André Telles, Rio de Janeiro, 2019. Traduzido de Dictionaire amoureux de lá psychanalyse, Paris, Éditions Plon/Seuil, Paris, 2017. Budapeste Prazer do irracional Depois de Viena, sua irmã gêmea, Budapeste foi a segunda cidade dos primórdios da psicanálise. A [&#8230;]</p>
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<p>Uma geografia sensível a partir do Dicionário Amoroso da Psicanálise.</p>
<p>ROUDINESCO, Elisabeth Dicionário Amoroso da Psicanálise, tradução André Telles, Rio de Janeiro, 2019.</p>
<p class="text-align-left">Traduzido de Dictionaire amoureux de lá psychanalyse, Paris, Éditions Plon/Seuil, Paris, 2017.</p>
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<p>Budapeste</p>
<p>Prazer do irracional</p>
<p>Depois de Viena, sua irmã gêmea, Budapeste foi a segunda cidade dos primórdios da psicanálise. A ponto de, após a Primeira Guerra Mundial, Freud cogitar fazê-la capital de seu movimento. Em pleno coração da Mittel europa, e durante o longo declínio da famigerada monarquia bicéfala que unia o reino da Hungria ao império dos Habsburgo, a atividade freudiana foi bastante intensa ali, em especial durante o abençoado período da Belle Époque e graças ao lugar eminente ocupado por Sandor Ferenczi, intelectual de grande talento e clínico inaudito, autor de uma obra importante e de uma correspondência volumosa com Freud, de quem era o discípulo mais próximo. Freud gostava dele como de um filho e sonhou inclusive em dar-lhe sua filha Mathilde como esposa, tendo-lhe confessado no dia seguinte ao casamento desta com Robert Hollitscher: &#8220;Posso lhe confessar agora”, escreve-lhe em 7 de fevereiro de 1909, “nesse verão eu bem gostaria de vê-lo no lugar do rapaz, de quem aprendi a gostar desde então e que agora partiu com a minha filha.”</p>
<p>Manifestamente, teria desejado que seus futuros netos fossem também herdeiros daquele a quem considerava um membro de sua família, oriundo do mesmo cadinho cultural que o seu. E, em 2 de março de 1917, quando soube que Matilde não poderia ser mãe, escreveu estas palavras ao amigo: “Convém notar que, se tivesse se casado com Mathilde, você não teria tido filhos, o que aliás eu ainda não sabia na época.&#8221; Foi a ele também que contou, em novembro de 1917, que estava em vias de tratar um doloroso edema no palato, e fumando cada vez mais charutos. Freud, o darwiniano racionalista, não estava ao abrigo das piores incoerências.</p>
</div>
<div id="1911264501" class="imageWidget align-center u_1911264501" data-element-type="image" data-widget-type="image">
<p><figure style="width: 1600px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" id="1667215909" src="https://lirp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/opt/buenos-aires-1920w.jpg" alt="Buenos Aires 1930" width="1600" height="918" data-dm-image-path="https://irp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/buenos-aires.jpg"><figcaption class="wp-caption-text">(Buenos Aires &nbsp;1930)</figcaption></figure></p>
</div>
<div id="1343164283" class="dmNewParagraph" data-dmtmpl="true" data-element-type="paragraph" data-version="5" data-uialign="center">
<p><span class="">Buenos Aires</span></p>
<p>Sonhar o Eu</p>
<p>Historiadores e sociólogos sempre se perguntaram por que a psicanálise causou tamanho impacto na Argentina, a ponto de constituir uma espécie de cultura de massa e um verdadeiro fenômeno social. Segundo pude estabelecer, sabemos que no fim do século XX o número de psicanalistas proporcionalmente à população era um dos mais altos do mundo, ao lado da França e da Suíça. Quanto às sociedades psicanalíticas argentinas, seu número é igualmente significativo, bem como sua diversidade, uma vez que elas agrupam todas as tendências do freudismo.</p>
<p>A Argentina não só se tornou a primeira potência psicanalítica do continente americano durante a segunda metade do século XX como promoveu igualmente uma formidável expansão do movimento psicanalítico no conjunto do território latino-americano, com diferenças para cada país. Ao Brasil, primeiro país de implantação do freudismo durante o entreguerras, mas que nessa época nunca foi terra de exílio para os psicanalistas europeus, os argentinos deram novo fôlego após 1945, através das migrações sucessivas ou dos intercâmbios clínicos. Assim, contribuíram para transformar o conjunto do continente latino-americano num espelho da Europa, capaz de rivalizar não só com a própria Europa como com o continente norte-americano, onde a psicanálise conheceu um declínio, paradoxal aliás, a partir de 1960.</p>
<p>Quando o assunto é Argentina, pensamos logo em Buenos Aires, e amamos Buenos Aires, pois foi lá que se realizou o milagre argentino da psicanálise, Fenômeno que, todos sabem, é acima de tudo um fenômeno urbano.</p>
</div>
<div id="1860939302" class="imageWidget align-center u_1860939302" data-element-type="image" data-widget-type="image">
<p><figure style="width: 694px" class="wp-caption alignnone"><img loading="lazy" decoding="async" id="1934828212" src="https://lirp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/opt/buenos-aires-2021-1920w.jpg" alt="" width="694" height="442" data-dm-image-path="https://irp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/buenos-aires-2021.jpg"><figcaption class="wp-caption-text">Buenos Aires 2021.</figcaption></figure></p>
</div>
<div id="1054222689" class="dmNewParagraph" data-dmtmpl="true" data-element-type="paragraph" data-version="5">
<p class="text-align-left">
</div>
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		<title>Pontos nada Cardeais</title>
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		<dc:creator><![CDATA[O Barato no Divã]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Oct 2021 19:43:05 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Convidados]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Pontos nada Cardeais: uma geografia sensível a partir do Dicionário Amoroso da Psicanálise. ROUDINESCO, Elisabeth Dicionário Amoroso da Psicanálise, tradução André Telles, Rio de Janeiro, 2019. Traduzido de Dictionaire amoureux de lá psychanalyse, Paris, Éditions Plon/Seuil, Paris, 2017. Autor:&#160; Jorge Artur Canfield Floriani. Budapeste Prazer do irracional Depois de Viena, sua irmã gêmea, Budapeste foi [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<div data-rss-type="text">
<p style="text-align: center;"><span style="color: var(--ast-global-color-3); font-size: 1rem;">Pontos nada Cardeais: uma geografia sensível a partir do Dicionário Amoroso da Psicanálise.</span></p>
</div>
<div data-rss-type="text">
<p style="text-align: center;">ROUDINESCO, Elisabeth Dicionário Amoroso da Psicanálise, tradução André Telles, Rio de Janeiro, 2019.</p>
<p style="text-align: center;">Traduzido de Dictionaire amoureux de lá psychanalyse, Paris, Éditions Plon/Seuil, Paris, 2017.</p>
<p style="text-align: center;">Autor:&nbsp; Jorge Artur Canfield Floriani.</p>
</div>
<div data-rss-type="text">
<p><a style="font-size: 1rem;"><img loading="lazy" decoding="async" class="alignleft" src="https://irp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/ewew.jpg" alt="" width="271" height="390"></a></p>
</div>
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<p><strong>Budapeste</strong></p>
<p>Prazer do irracional</p>
<p>Depois de Viena, sua irmã gêmea, Budapeste foi a segunda cidade dos primórdios da psicanálise. A ponto de, após a Primeira Guerra Mundial, Freud cogitar fazê-la capital de seu movimento. Em pleno coração da Mittel europa, e durante o longo declínio da famigerada monarquia bicéfala que unia o reino da Hungria ao império dos Habsburgo, a atividade freudiana foi bastante intensa ali, em especial durante o abençoado período da Belle Époque e graças ao lugar eminente ocupado por Sandor Ferenczi, intelectual de grande talento e clínico inaudito, autor de uma obra importante e de uma correspondência volumosa com Freud, de quem era o discípulo mais próximo. Freud gostava dele como de um filho e sonhou inclusive em dar-lhe sua filha Mathilde como esposa, tendo-lhe confessado no dia seguinte ao casamento desta com Robert Hollitscher: &#8220;Posso lhe confessar agora”, escreve-lhe em 7 de fevereiro de 1909, “nesse verão eu bem gostaria de vê-lo no lugar do rapaz, de quem aprendi a gostar desde então e que agora partiu com a minha filha.”</p>
<p>Manifestamente, teria desejado que seus futuros netos fossem também herdeiros daquele a quem considerava um membro de sua família, oriundo do mesmo cadinho cultural que o seu. E, em 2 de março de 1917, quando soube que Matilde não poderia ser mãe, escreveu estas palavras ao amigo: “Convém notar que, se tivesse se casado com Mathilde, você não teria tido filhos, o que aliás eu ainda não sabia na época.&#8221; Foi a ele também que contou, em novembro de 1917, que estava em vias de tratar um doloroso edema no palato, e fumando cada vez mais charutos. Freud, o darwiniano racionalista, não estava ao abrigo das piores incoerências.</p>
<p><figure style="width: 505px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://irp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/imagem+3.jpg" target="_blank" rel="noopener"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://irp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/imagem+3.jpg" alt="" width="505" height="326"></a><figcaption class="wp-caption-text">Budapeste 1925</figcaption></figure></p>
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<p><figure style="width: 280px" class="wp-caption alignleft"><a href="https://irp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/bdapeste+2021.jpg" target="_blank" rel="noopener"><img loading="lazy" decoding="async" src="https://irp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/bdapeste+2021.jpg" alt="" width="280" height="421"></a><figcaption class="wp-caption-text">Budapeste 2021</figcaption></figure></p>
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		<title>A hysteria na clínica psicanalítica</title>
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		<pubDate>Wed, 15 Sep 2021 19:24:24 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>A hipótese de que teria ocorrido uma “histericização da teoria psicanalítica” a partir da segunda metade do século XX até os nossos dias é uma constatação ou diagnóstico proposto por Christopher Bollas em seu livro Hysteria. O que ele quis dizer a partir desta constatação? Antes de entrar nos termos dessa questão, vale precisar que este [&#8230;]</p>
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<p><figure style="width: 560px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" id="1129580552" class="" src="https://lirp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/opt/arch-of-hysteria-1993-1920w.jpg" alt="" width="560" height="445" data-dm-image-path="https://irp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/arch-of-hysteria-1993.jpg" data-hover-effect="none" /><figcaption class="wp-caption-text">(Imagem: &#8220;Arch of Hysteria&#8221; de Louise Bourgeois)</figcaption></figure></p>
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<p class="text-align-justify"><span class="">A hipótese de que teria ocorrido uma “histericização da teoria psicanalítica” a partir da segunda metade do século XX até os nossos dias é uma constatação ou diagnóstico proposto por Christopher Bollas em seu livro </span>Hysteria. O que ele quis dizer a partir desta constatação? Antes de entrar nos termos dessa questão, vale precisar que este é um livro singular na trajetória de Bollas, pois deixa a impressão de certa descontinuidade ou reorientação teórica no interior de seu pensamento.</p>
<p class="text-align-justify"><span class="">Antes deste trabalho, publicado no final dos anos 1990, Bollas dedicou-se quase que exclusivamente aos desdobramentos e achados de seu primeiro livro, intitulado </span>A sombra do Objeto<span class=""> (1987). Muito cedo o autor percebeu que no mais profundo de cada formação psíquica atuava uma “gramática existencial” capaz de processar no mundo dos objetos e das formas estéticas particulares os elementos responsáveis pela realização do Self. O “modo de ser” singular e único em cada expressão subjetiva daria forma ao que Bollas denomina o “idioma pessoal” de cada um. Neste primeiro livro, a elaboração da teoria dos objetos transformacionais situava o trabalho de Bollas em continuidade com a obra de D. Winnicott. Este, por sua vez, inaugurou no campo psicanalítico a compreensão do Self como um modo contínuo do Ser.</span></p>
<p class="text-align-justify"><span class="">Por que a retomada de um tema freudiano por excelência – a histeria – parecia dar ao conjunto da obra de Bollas uma espécie de “correção” de rota? Segundo o próprio autor, a descrição e o tratamento das patologias contemporâneas recolhidas na clínica psicanalítica, sejam a “personalidade borderline” ou os estados-limite – dentre outras denominações –, pareciam desconsiderar aquilo mesmo que havia sido a grande descoberta freudiana, ou seja, o traumatismo de origem sexual. Daí a afirmação contundente do autor de que a teoria – e a clínica – psicanalítica, ao não considerar o que é próprio da dimensão sexual para a psicanálise, padeceria de um processo de histericização.</span></p>
<p class="text-align-justify"><span class="">Longe de negar a importância psicanalítica dos desdobramentos estéticos enquanto matriz dos modos singulares de ser – a teoria dos objetos transformacionais –, a retomada dos textos freudianos sobre a histeria e suas implicações para a clínica contemporânea permitiu a Bollas identificar um processo de fixação do sujeito em torno do “objeto primário” e a consequente suspensão do “idioma pessoal” nos casos clínicos de histeria: “O mal do histérico é, então, a suspensão do </span>idioma do self, a fim de realizar o desejo do objeto primário, estratégia baseada nas ações complementares de identificação e representação.”</p>
<p class="text-align-justify"><span class="">Ainda de acordo com Bollas, o “histérico busca as dimensões não-sexuais do outro, recusando a redução ao sexual, insistindo na expansão para o auto-sacrifício transcendente ou mental em proveito de formas de amor mais elevadas.” O modo como a evitação do sexual pelo histérico encontraria sua confirmação ou naturalização numa espécie de escuta muda aos apelos do caráter traumático que o sexual imprime em toda relação é algo digno de atenção. Nos casos em que isso se dá no interior da relação analista/paciente, o recalque do paciente parece se encontrar com aquele do analista na medida em que ambos, numa espécie de conluio inconsciente, deixam de fora do encontro analítico os significantes traumáticos que atravessam a sexualidade de cada um. Num dos capítulos do livro </span>Hysteria, “A sedução e o terapeuta”, Bollas expõe uma situação em que o (des)encontro entre analista e paciente – expresso pela incapacidade do primeiro de dar-se conta do que é próprio do trauma sexual que habita o coração do inconsciente – terminou de forma trágica para ambos:</p>
<p class="text-align-justify">“Quentin é um psicólogo que teve uma grande prática cuidando de pessoas com distúrbios alimentares e clientes com disfunção sexual. Grande conhecedor da literatura analítica, especialmente nos campos da psicologia do self, das relações objetais e separação-individuação. Ele acreditava que a maioria de seus pacientes haviam sido traumatizados em razão da falha nos cuidados parentais em sua infância e que eles necessitavam de alguma forma de transformação por meio de uma nova espécie de funcionamento empático, atuando no ambiente clínico. [&#8230;] Ele normalmente se sentava no divã com seus pacientes que estavam em sofrimento e, vez por outra, perguntava-lhes se queriam segurar sua mão ou ter seus braços ao redor deles. Aparentemente, a maioria queria. E, aparentemente, isto era o fim de tudo.”</p>
<p class="text-align-justify"><span class="">Bollas continua o relato clínico com a descrição do tratamento de Suzie por Quentin. O terapeuta repetiu com ela o “acolhimento” habitual, mas algo muito </span><span class="">estranho </span>se deu na relação terapêutica. A paciente desapareceu subitamente das sessões para, dias depois, acusar Quentin de assédio sexual. Abalado, o terapeuta não sabia o que dera errado: ele continuava a perguntar-se se Suzie por acaso não teria sido “verdadeiramente” abusada pelo pai&#8230; O trauma sexual que levou ao fim da análise – e seu trágico desfecho – não pôde ser elaborado pelo terapeuta porque, amparado em certa teoria, tratava-se para ele de algo excluído da cena analítica. Quentin acabou seduzido pela ideia de uma relação onde um par se completa inteiramente – um amor transcendental? –, quando aquilo que é da ordem do sexo insiste numa permanente secção.</p>
<p class="text-align-justify"><span class="">O diagnóstico bollasiano de “histericização da psicanálise” nos faz pensar que nunca é tarde para levarmos em conta uma vez mais o que o trabalho de Freud nos deixou como um legado, especialmente no que tange à dimensão ampliada do sexual e suas manifestações inconscientes. Não considerar o fator traumático do erotismo sexual em qualquer situação analítica seria uma outra forma – como nos mostra Bollas em seu exemplo clínico – de fazer-se esquecer ou desmentir o que é próprio da divisão instaurada pela sexualidade. Noutras palavras, podemos dizer que o risco desta confusão é também confundir-se para sempre e irremediavelmente na linguagem erótica que vem do Outro.</span></p>
<p class="text-align-justify">_____________________________</p>
<p class="text-align-justify m-size-13 size-16"><span class="m-font-size-13 font-size-16">João Paulo Ayub Fonseca é psicanalista e doutor em Ciências Sociais pela Unicamp com tese intitulada “Arte é sangue, é carne – a riqueza e a miséria da palavra no romance de Graciliano Ramos”. Autor de </span><span class="m-font-size-13 font-size-16">Introdução à analítica do poder de Michel Foucault</span><span class="m-font-size-13 font-size-16"> (Intermeios, 2015).</span></p>
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		<title>XVI. Porque Dia da Mulher é todo dia! Madame Elisabeth Roudinesco: Onde Sofremos?</title>
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		<pubDate>Sun, 22 Aug 2021 23:05:06 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Dona de um agudo espírito crítico para com a psicanálise tal como a conhecemos hoje, e um profundo conhecimento histórico, Madame Roudinesco desenvolve um texto claro, objetivo e contundente. Praticante da psicanálise por longo tempo, doida por uma boa viagem e fácil de criar amizades e fãs, a Dra. Elisabeth Roudinesco (pesquisadora da Universidade Paris [&#8230;]</p>
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<p class="text-align-justify">Praticante da psicanálise por longo tempo, doida por uma boa viagem e fácil de criar amizades e fãs, a Dra. Elisabeth Roudinesco (pesquisadora da Universidade Paris VII) pergunta a si mesma: &#8220;&#8230; por que, após cem anos de existência e de resultados clínicos incontestáveis, a psicanálise era tão violentamente atacada hoje em dia pelos que pretendem substituí-la por tratamentos químicos, julgados mais eficazes porque atingiriam as chamadas causas cerebrais das dilacerações da alma.&#8221;</p>
<p class="text-align-justify">A autora argumenta e está consciente de que &#8220;A psicanálise atesta um avanço da civilização sobre a barbárie.&#8221; Daí seu empenho na afirmação de que o homem é livre por sua fala.</p>
<p class="text-align-justify">Somos profundamente afetados por nossa época.</p>
</div>
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<p><figure style="width: 491px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" id="1839257424" class="" src="https://lirp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/opt/61sqXPbiY6L-1920w.jpg" alt="" width="491" height="733" data-dm-image-path="https://irp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/61sqXPbiY6L.jpg" /><figcaption class="wp-caption-text"></em> <em>(ROUDINESCO, Elisabeth Por que a psicanálise, tradução Vera Ribeiro, Rio de Janeiro, 2000. Tradução de Pourquoi la psychanalyse?, Paris, Librairie Arthème Fayard, 1999)</em></figcaption></figure></p>
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<p class="m-size-13 size-16">
<p class="text-align-justify">&#8220;É justamente a existência do sujeito que determina não somente as prescrições psicofarmacológicas atuais, mas também os comportamentos ligados ao sofrimento psíquico. Cada paciente é tratado como um ser anônimo, pertencente a uma totalidade orgânica. Imerso numa massa em que todos são criados à imagem de um clone, ele vê ser-lhe receitada a mesma gama de medicamentos, seja qual for o seu sintoma. Ao mesmo tempo, no entanto, busca outra saída para seu infortúnio. De um lado, entrega-se à medicina científica, e de outro, aspira a uma terapia que julga mais apropriada para o reconhecimento de sua identidade. Assim, perde-se no labirinto das medicinas paralelas.</p>
<p class="text-align-justify"><span class="">É por isso que assistimos, nas sociedades ocidentais, a um crescimento inacreditável do mundinho dos curandeiros, dos feiticeiros, dos videntes e dos magnetizadores. Frente ao cientificismo erigido em religião e diante das ciências cognitivas, que valorizam o homem-máquina em detrimento do homem desejante, vemos florescer, em contrapartida, toda sorte de práticas, ora surgidas da pré-história do freudismo, ora de uma concepção ocultista do corpo e da mente: magnetismo, sofrologia, naturopatia, iridologia, auriculoterapia, energética transpessoal, sugestologia, mediunidade etc. Ao contrário do que se poderia supor, essas práticas seduzem mais a classe média — funcionários, profissionais liberais e executivos — do que os meios populares, ainda apegados, apesar da precariedade da vida social, a uma concepção republicana da medicina científica.&#8221; </span>Pg. 14-15.</p>
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		<title>Paternidade e desejo num país adoecido</title>
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		<pubDate>Wed, 18 Aug 2021 16:11:48 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<p>Há alguns dias recebi de um amigo uma pergunta um tanto curiosa que me fez pensar: “Como é ser pai para você?” Pego de surpresa, não soube muito bem o que dizer&#8230; e agora penso em como poderia narrar através da palavra escrita a experiência de ser pai no nosso país. De partida, é preciso [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-size: 1rem; color: var(--ast-global-color-3);">Há alguns dias recebi de um amigo uma pergunta um tanto curiosa que me fez pensar: “Como é ser pai para você?” Pego de surpresa, não soube muito bem o que dizer&#8230; e agora penso em como poderia narrar através da palavra escrita a experiência de ser pai no nosso país. De partida, é preciso dizer que uma parte importante desta experiência me atravessa e me toma a palavra. Algo da ordem das condições sociais e culturais implicadas no papel do pai compõem com o lugar de onde falo. Ao narrar minha experiência, outras experiências que me constituíram também se fazem presentes: através da minha fala ouço as vozes do meu pai, avôs, os pais dos avôs&#8230; Como em todo relato de si mesmo, a desnaturalização do lugar a partir do qual se fala não garante por si só neutralidade e domínio sobre os determinantes normativos que nos constitui. Digo isso porque a minha experiência subjetiva de ser pai é marcada em vários níveis, em termos afetivos, culturais, históricos e sociais.</span></p>
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<p class="text-align-justify" style="line-height: 150%;"><span class="" style="display: initial;"><span style="display: initial;">Para mim, ser pai não se trata de qualquer experiência, mas daquelas que de tão intensas provocam uma descontinuidade na vida, um antes e depois irreversíveis. As experiências de descontinuidade, assim como a morte e o nascimento em vida, nos colocam diante do desafio de tentar costurar, em palavras, os fios soltos de um corte que se deu num tempo impreciso, inexato. Ao mesmo tempo interrupção e recomeço no tecido da vida, vejo-me às voltas com um enigma. E se em alguma medida me perco em tais divagações, é que estou aqui também com o inescrutável da palavra: pai.</span><br />
</span></p>
<p class="text-align-justify" style="line-height: 150%;"><span style="display: initial;">A paternidade admite uma temporalidade bastante singular. Ela começa com um nome apenas, pai, e uma articulação profundamente hesitante – ainda que muitos saibam muito bem disfarçar esse momento – “sou o pai”. Um tempo retardatário, que segue na frente embora sabendo de sua inevitável defasagem. “Eles nasceram (a mãe e o bebê) e eu ainda estou aqui para nascer”. Acontece que uma hora o nascimento vem e aí a palavra ganha opacidade, novas camadas e outras formas de se dizer: “papá”, “papai”&#8230; Um estranho acontecimento: ser dito e fundado pelo outro que primeiro nomeamos ao nascer. Ainda que ele o diga de modo muito rudimentar, pois o dizer, antes da palavra, tem apenas a forma expressiva de um olhar atento e curioso, nos faz lembrar e reviver a grande passagem pelo limiar do nascimento. Assim que ele chegou ao mundo, criando mundos, atravessamos juntos e inauguramos o instante da minha própria morte e renascimento. Não serei mais quem fui depois de ser pai, algo em mim deixou de existir. A letra “p” que sai da boca da criança endereçada ao pai que sou provoca em mim a relembrança de um traço impossível de se dizer, mas que não cessa de tentar se escrever. No Grande Sertão, Guimarães Rosa/Riobaldo diz: “Um menino nasceu. O mundo tornou a começar”. Como escrever o instante de um começo tendo sido por ele inaugurado?</span></p>
<p class="text-align-justify" style="line-height: 150%;"><span class="" style="display: initial;"><span style="display: initial;">A partir de uma perspectiva psicanalítica, tento escrever sobre essa temporalidade que nos constitui bem devagar, grão em grão de tempo, mas também sobre a natureza do desejo e do obstáculo presentes no mais fundo da experiência que constitui pai/filho. O pai, na forma e função de um “não/nome-do-pai”, segundo Lacan, participa de modo fundamental da articulação entre o desejo e o obstáculo (lei) na vida psíquica do filho. O pai-obstáculo, paradoxalmente, funda um campo de possibilidades para o filho na mesma medida em que se torna algo como “uma pedra no meio do caminho”&#8230; um “intruso” que aparece no interior da relação mãe e filho, convidando-o a um outro modo de ser, de existir, mediado pela palavra. Acontece que – e aqui, mais que tudo, devo tentar dizer a partir da minha própria experiência de ser pai – o nascimento de um filho (re)inaugura a articulação entre o desejo e o obstáculo também na vida psíquica do pai. O mundo do pai é reinventado no instante exato em que ele é posto a ocupar o papel de obstáculo na vida do filho.</span><br />
</span></p>
<p class="text-align-justify" style="line-height: 150%;"><span class="" style="display: initial;"><span style="display: initial;">O filho ensina o pai na difícil tarefa que consiste em reaprender a desejar. Assim como se dá com o filho, o pai também se vê diante da abertura de um campo de possíveis e impossíveis vitais. Não há mais o que havia antes, e esse encontro não cessa de provocar a imprecisa travessia do desejo. Numa brincadeira de descer e subir escadas, meu filho me impede de retirar o obstáculo colocado por ele no meio do caminho: sabedor da minha presença-potência-obstáculo, ele me pede para não atrapalhar sua busca que consiste no prazer de superar os obstáculos que ele mesmo criou para a realização do desejo de descer e subir as escadas. Nesse momento, me vejo consentir e respeitar o seu desejo preservando o obstáculo. Noutras palavras, vejo-me sair de cena a fim de salvar o seu desejo de brincar.</span><br />
</span></p>
<p class="text-align-justify" style="line-height: 150%;"><span style="display: initial;">Sem obstáculos, o “desejo absoluto” seria um outro nome para o “obstáculo absoluto”. O desejo sem limites é uma fusão ou um incesto e, portanto, a morte do desejo. Meu filho me ensina e me lembra do desejo de brincar. Estranhamente, ele me ensina a salvar o meu desejo preservando os meus próprios obstáculos: saber ultrapassá-los e desviar o caminho, reinventando novas trilhas, não implica destruí-los. E quando é preciso salvá-lo de seu desejo infantil onipotente, quando é preciso intervir na brincadeira da escada mais alta para evitar uma queda além da conta (intolerável), ele me ensina, sem saber, a medida muito sutil na qual a construção imprecisa de um obstáculo pode acabar aniquilando o desejo. O intolerável, a queda que pode machucar seriamente, pode matar o desejo de continuar brincando. Nesse sentido, diz Adam Phillips: “pode-se reconhecer um obstáculo – o que pode significar construir algo como um obstáculo – apenas quando ele pode ser tolerado. Só poderemos compreender nossas fantasias de continuidade se conhecermos aquilo que consideramos um obstáculo”. (Cia das letras, 1996)</span></p>
<p class="text-align-justify" style="line-height: 150%;"><span style="display: initial;">Christopher Bollas é também bastante sensível à importância do obstáculo representado pelo pai na economia do desejo infantil: “Sem dúvida, o pai-obstáculo mostra-se vital à negociação da criança com todas as dificuldades futuras, e meninos e meninas buscam o conflito com esta outra figura não desejada, inconscientemente sabendo que, assim o fazendo, estarão a serviço de seus próprios futuros.” (Escuta, 2000) Bollas se refere aqui ao importante processo de integração psíquica da ordem simbólica. Ao mesmo tempo em que impõe limites, esse modo de ordenação da vida resulta na instauração de novas possibilidades de vida. Um modo de ser que é também circuito do desejo. O encontro com aquele que habita esse lugar, o pai-obstáculo, não se dá de um modo tranquilo, mas quando acontece nos termos de uma relação em que o pai não se torna intolerável, há mundo por vir.</span></p>
<p class="text-align-justify" style="line-height: 150%;"><span style="display: initial;">Nesse instante, tendo em vista que o futuro depende deste jogo em que o desejo deve reconhecer e sobreviver aos obstáculos, penso o que ensinar ao meu filho que nasceu em dezembro de 2018, momento preciso em que o país acabava de mergulhar em mais uma de suas perigosas aventuras políticas. A presença esmagadora do obstáculo-absoluto não deixa espaço ao desejo. O conceito de trauma, central para a psicanálise contemporânea, deve dar conta não tanto daquela dinâmica em que os obstáculos são construídos com o objetivo de balizar e disparar o desejo. Aqui, estamos diante de uma força desestruturante onde o desejo não pode jamais comparecer. A questão que me foi lançada, “Como é ser pai para você?”, deve necessariamente responder ao enfrentamento do estado social intolerável que vivemos. Porque o pai deve cuidar do desejo dos filhos.</span></p>
<p class="text-align-justify" style="line-height: 150%;"><span style="display: initial;">Por tudo isso, ser pai no Brasil contemporâneo tem a ver com o desafio de salvar o desejo dos filhos ajudando-os a suportar ao seu redor um limite quase insuportável. Estamos em pandemia e as mortes se multiplicam a cada dia. Me pego cantando com o Milton: “Pai, afasta de mim esse cale-se, pai, afasta de mim esse cale-se!” Penso que os corpos daqueles que adoeceram e morreram de Brasil nos últimos meses não nos deixa esquecer o horror que enfrentamos. O grito mudo nas ruas, casas e hospitais é a marca intolerável de um tempo traumático.</span></p>
<p class="text-align-justify" style="line-height: 150%;"><span class="" style="display: initial;"><span style="display: initial;">O pai nunca deve esquecer que a palavra endereçada ao filho é também portadora das muitas cicatrizes e feridas abertas no curso de uma vida. Tanto os obstáculos ultrapassados, feitos e refeitos, quanto aqueles que não puderam vir a ser reconhecidos – traumas que deixaram sombras na alma como rastros do intolerável – insinuam-se nos modos desajeitados do pai. Um olhar que vez ou outra se perde no horizonte, a palavra que às vezes custa a sair, um receio das coisas pequenas. Nesse estado de espírito, sem querer, ele estranha e não entende a brincadeira da criança. Na hora de sair para passear na rua meu filho diz com uma alegria imensa: “papai quer comigo, papai quer comigo”. Entendo que ele gostaria de dizer “papai quer ir comigo”. Mas talvez não. Esse obstáculo que a língua me impõe a ponto de enxergar uma lacuna na frase do meu filho, fazendo-o passar pelo labirinto da linguagem, é algo que ele, a seu modo, sabe muito bem contornar. E então, a despeito do meu riso e estranhamento, ele continua dizendo: “papai quer comigo, papai quer comigo”. Percebo agora que esse querer, apenas querer, na forma de um convite a se deixar ir e seguir em busca de novos desejos e obstáculos no caminho, só ele pode me ensinar.</span><br />
</span></p>
<p class="text-align-justify"><span style="display: initial;">_____________________________<br />
</span></p>
<p class="m-size-13 text-align-justify size-16"><span class="m-font-size-13 font-size-16" style="font-style: italic; display: initial;"><span class="m-font-size-13 font-size-16" style="font-style: italic; display: initial;">João Paulo Ayub Fonseca é psicanalista e doutor em Ciências Sociais pela Unicamp com tese intitulada “Arte é sangue, é carne – a riqueza e a miséria da palavra no romance de Graciliano Ramos”. Autor de</span><br />
</span><span class="m-font-size-13 font-size-16" style="font-style: normal; display: initial;">Introdução à analítica do poder de Michel Foucault</span><span class="m-font-size-13 font-size-16" style="font-style: italic; display: initial;"> <span class="m-font-size-13 font-size-16" style="font-style: italic; display: initial;">(Intermeios, 2015).</span></span></p>
<p class="m-size-13 text-align-justify size-16" style="line-height: 150%;"><span class="m-font-size-13 font-size-16" style="font-weight: bold; display: initial;">Referências:</span></p>
<p class="m-size-13 text-align-justify size-16" style="line-height: 150%;"><span class="m-font-size-13 font-size-16" style="display: initial;">&#8211; Bollas, Christopher. Hysteria. São Paulo: Escuta, 2000.</span></p>
<p class="m-size-13 text-align-justify size-16" style="line-height: 150%;"><span class="m-font-size-13 font-size-16" style="display: initial;">&#8211; Phillips, Adam. Beijo, cócegas e tédio. São Paulo: Cia das Letras, 1996.</span></p>
</div>
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		<title>XV. Porque Dia da Mulher é todo dia! Madame Elisabeth Roudinesco: Psicanalista e Historiadora</title>
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		<dc:creator><![CDATA[O Barato no Divã]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 25 Jul 2021 18:57:17 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Convidados]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Madame Elisabeth Roudinesco cria um interessante painel seletivo de filósofos franceses, os quais, em alguma medida mantiveram um profícuo diálogo com a psicanálise (aqui, no caso, com a psicanálise francesa e Lacan). A intimidade da Doutora Roudinesco com a filosofia e a psicanálise do século XX permite voos inesperados e a abertura para novas posições [&#8230;]</p>
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<p><figure style="width: 338px" class="wp-caption alignleft"><img loading="lazy" decoding="async" id="1129580552" class="" style="color: var(--ast-global-color-3); font-size: 1rem;" src="https://lirp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/opt/roud-1920w.png" alt="" width="338" height="308" data-dm-image-path="https://irp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/roud.png" data-hover-effect="none" /><figcaption class="wp-caption-text"><em>(Imagem: Elisabeth Roudinesco, 2009, Paris. Miguel Medina. AFP)</em></figcaption></figure></p>
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<p class="text-align-justify">Madame Elisabeth Roudinesco cria um interessante painel seletivo de filósofos franceses, os quais, em alguma medida mantiveram um profícuo diálogo com a psicanálise (aqui, no caso, com a psicanálise francesa e Lacan).</p>
<p class="text-align-justify">A intimidade da Doutora Roudinesco com a filosofia e a psicanálise do século XX permite voos inesperados e a abertura para novas posições epistemológicas.</p>
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<p><figure style="width: 484px" class="wp-caption alignright"><img loading="lazy" decoding="async" id="1839257424" src="https://lirp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/opt/81-WJsqwhoL-1920w.jpg" alt="" width="484" height="726" data-dm-image-path="https://irp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/81-WJsqwhoL.jpg" /><figcaption class="wp-caption-text"></em> <em>(ROUDINESCO, Elisabeth Filósofos na tormenta: Canguilhem, Sartre, Foucault, Althusser, Deleuze, Derridá, tradução André Telles, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2007)</em></figcaption></figure></p>
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<p class="text-align-justify">&#8220;Vivemos uma época muito estranha. Os grandes acontecimentos, os grandes homens, os grandes pensamentos, as grandes virtudes não param de ser comemorados: o ano Rimbaud, o ano Hugo, o ano Jules Verne. E, entretanto, nunca a revisão dos fundamentos de cada disciplina, de cada doutrina, de cada aventura emancipadora foi tão valorizada. O feminismo, o socialismo e a psicanálise são violentamente repelidos, e Freud, Marx ou Nietzsche, declarados mortos, assim como toda forma de crítica da norma. Fala-se apenas de direito de inventário ou de avaliação, como se a distância necessária a todo procedimento científico se resumisse a uma vasta contabilidade das coisas e dos homens, ou antes dos homens transformados em coisas.</p>
<p class="text-align-justify"><span class="">Não penso apenas no negacionismo, que sabemos banido da comunidade dos historiadores, mas que continua a agir subterraneamente, penso antes nesses revisionismos ordinários que tendem, por exemplo, a colocar Vichy e a Resistência em pé de igualdade, em nome da &#8220;necessária&#8221; relativização do heroísmo e para decodificar a ideia de rebelião. Ou, ainda, aquele que consiste, por exemplo, numa astuciosa desvirtuação de textos, em fazer de Salvador Allende um racista, um anti-semita e um eugenista, sob pretexto de denunciar os pretensos mitos fundadores da história mundial do socialismo.&#8221; </span>Pg. 7-8.</p>
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		<title>A escuta poética de Christopher Bollas</title>
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		<dc:creator><![CDATA[O Barato no Divã]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 21 Jul 2021 15:39:48 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Convidados]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>  “Quando se trata de recepção de personagem, a sensibilidade do analista é comparável à disposição mental de quem está ouvindo uma poesia.” C. Bollas Christopher Bollas é um autor singular no interior da tradição psicanalítica. Tal afirmação poderia ser ilustrada a partir de um apanhado de conceitos, teorias e desdobramentos da prática clínica presentes [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align: right;"><span style="font-size: 1rem; color: var(--ast-global-color-3);">  “Quando se trata de recepção de </span><span style="display: initial; font-style: italic;">personagem</span><span style="display: initial;">,</span></p>
<div id="1250789679" style="transition: none 0s ease 0s; display: block; line-height: initial;" data-dmtmpl="true" data-element-type="paragraph" data-uialign="center" data-version="5">
<p class="text-align-right" style="line-height: 200%; text-align: right;"><span class="" style="display: initial;"><span style="display: initial;">a sensibilidade do analista é comparável à disposição</span><br />
</span></p>
<p class="text-align-right" style="line-height: 200%; text-align: right;"><span style="display: initial;">mental de quem está ouvindo uma poesia.”</span></p>
<p class="text-align-right" style="line-height: 200%; text-align: right;"><span style="display: initial;">C. Bollas</span></p>
<div id="1250789679" class="u_1250789679 dmNewParagraph" data-dmtmpl="true" data-element-type="paragraph" data-uialign="center" data-version="5">
<p class="text-align-justify">Christopher Bollas é um autor singular no interior da tradição psicanalítica. Tal afirmação poderia ser ilustrada a partir de um apanhado de conceitos, teorias e desdobramentos da prática clínica presentes em seus livros<span class=""> A sombra do objeto (1987), Forças do destino (1989), Sendo um personagem (1992), O momento Freudiano (2007)</span><span class="">, entre tantos outros. Ou então, levando-se em conta sua proposta (política) de um convívio possível (não-destrutivo) entre as Escolas de Psicanálise, novamente nos encontramos diante de uma voz destacada num meio tantas vezes abafado pelo peso ruidoso de figuras e grupos centralizadores e excludentes.</span></p>
<p class="text-align-justify"><span class="">A partir do ensaio “Personagem e interformalidade”, que integra a coletânea </span>The Christopher Bollas Reader<span class="">, gostaria de pensar a singularidade da proposta psicanalítica bollasiana nos termos de um encontro precioso entre a psicanálise e a arte/literatura[1]. Em outras palavras, quero destacar aquilo que qualifica sua obra como um verdadeiro guia para a escuta poética da experiência humana. Do encontro com a expressão literária Bollas extraiu não somente os alicerces de sua formação intelectual (vale lembrar que ele doutorou-se em literatura, além de ser autor de quatro obras ficcionais publicadas)[2]. O olhar sobre a experiência estética constitui uma espécie de coração pulsante do seu pensamento. Trata-se, ainda, de um registro visceral a partir do qual ele articula o acontecimento humano às suas grandes potencialidades criativas e formas de vida.</span></p>
<p class="text-align-justify"><span class="">Para Bollas, a vida que se desdobra em “formas de ser e de relacionar-se” só pode ser devidamente compreendida e experimentada mediante uma abertura essencial (recepção) ao “jogo das formas” que a constitui. Estamos diante de uma concepção fundamentalmente processual da vida humana: o fluxo da vida, o </span><span class="">Ser </span><span class="">feito processo, é forma e in-formação impressas no mundo e nas relações&#8230; De modo singular, Christopher Bollas parte em busca desta dimensão da existência humana que não se esgota no registro simbólico da linguagem (“o verbalizado”), mas que se articula para além/aquém desta, num movimento paradoxal entre o dizível e o indizível de toda experiência. Exatamente por ser bastante sensível ao </span><span class="">Ser </span><span class="">que escapa às tentativas de enquadre, classificação e descrição, está em questão na psicanálise bollasiana o “ser-enquanto-ser” que se manifesta para além de conteúdos ou temas explicitados: “Em uma análise, pode-se perceber o </span><span class="">personagem </span><span class="">somente quando se reconhece a impossibilidade de organizar tal percepção em temas.” (a percepção a que se refere Bollas é uma qualidade de escuta das formas ou traços que se insinuam inconscientemente – através do “inconsciente receptivo” – no encontro entre dois ou mais </span>selves<span class="">.)</span></p>
<p class="text-align-justify">Há neste modo de conceber a experiência a recusa de uma primazia do domínio representacional no âmbito das relações humanas. A qualidade da experiência que interessa ao autor é aquela que se “presenta” a cada vez, a cada encontro, através de uma “comunicação profunda” entre dois idiomas;[3] uma troca de formas possíveis (interformalidade) e modos de ser que se realizam no movimento que consiste em afetar e ser afetado pelo outro (e pelo mundo). Este movimento, testemunhado pelo próprio autor nas suas relações de amizade, não pode ser descrito ou formulado diretamente em palavras:</p>
<p class="text-align-justify">Meus amigos e eu podemos falar sobre praticamente qualquer coisa, mas existe uma questão profunda que nunca podemos formular em palavras. Eu não posso expressar para um amigo o quanto ele é importante para mim, como sinto a forma do seu ser processando-se através de mim, como o organizo residualmente em uma matriz interna da mente atribuída ao seu ser; nem posso perguntar “quem sou eu?” — por mais que eu queira saber quem sou para os outros.</p>
<p class="text-align-justify"><span class="">No intuito de tentar apreender aquilo que escapa ao sentido contido/manifesto das palavras/narrativas Bollas faz uma aposta na expressão literária, transportando para a prática clínica a noção de </span>personagem<span class="">. O personagem, como um conjunto de traços ou formas, corresponde ao “DNA do ser individual. O </span><span class="">self </span><span class="">de alguém enquanto </span>idioma da forma.<span class="">” Não se trata apenas de um conjunto de significados (conteúdos) reunidos em torno de individualidades fechadas, mas de um “padrão de </span>ser e de se relacionar<span class=""> gerado pelo idioma do </span><span class="">self </span><span class="">de cada pessoa.” Assim, para Bollas o </span>personagem humano<span class=""> é muito mais do que um composto de sentidos, atributos, nomes e descrições, mas tudo aquilo que in-forma a experiência através de ações: “O personagem </span>fala por meio<span class=""> de objetos musicais, da pintura, da dança e assim por diante”.</span></p>
<p class="text-align-justify">A literatura, o cinema e o teatro constituem, portanto, um lugar privilegiado de inscrição estética, ou seja, um espaço onde se dá o jogo das formas e modos de ser que alimentam e dão vida aos personagens. Por exemplo, poderíamos pensar a qualidade estética da cena do voo do saco plástico dançando ao vento no filme<span class=""> Beleza Americana</span>, de Sam Mendes, e o significado daquele “jogo de formas” para a constituição da experiência do personagem Ricky Fitts, um jovem solitário que se alimenta das imagens capturadas em sua câmera de filmagem.[4]</p>
</div>
<div id="1862047385" class="imageWidget align-center u_1862047385" data-element-type="image" data-widget-type="image"><a id="1802066040"></a></p>
<p><figure style="width: 970px" class="wp-caption aligncenter"><img loading="lazy" decoding="async" id="1058316519" src="https://lirp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/opt/adere%C3%A7os-2-1920w.jpg" alt="" width="970" height="545" data-dm-image-path="https://irp.cdn-website.com/24f02e8e/dms3rep/multi/adere%C3%A7os-2.jpg" /><figcaption class="wp-caption-text">(Imagem: Beleza Americana, 1999)</figcaption></figure></p>
</div>
<div id="1567079751" class="dmNewParagraph" data-dmtmpl="true" data-element-type="paragraph" data-version="5" data-uialign="center">
<p class="text-align-center" style="text-align: center;"><strong>Ricky, Jane e a dança do saco plástico</strong></p>
<p class="text-align-justify"><span class="">Em </span><span class="">Beleza Americana </span>o significado da vida é experimentado de uma forma agônica. Os personagens parecem condenados à existência esvaziada dos subúrbios norte-americanos. E as formas capturadas pelas lentes de Ricky se revelam em momentos de profunda delicadeza, solidão e desamparo. Num instante nos deparamos com um verdadeiro “momento estético”, nos diria Bollas[5], capaz de restituir (evocar) à experiência um modo de ser que ultrapassa o registro imanente de uma vida vazia de sentidos, marcada por relações humanas brutalmente empobrecidas. Diante das imagens do saco plástico dançando ao vento, Ricky diz à personagem Jane Burnham:</p>
<p class="text-align-justify">“Você quer ver a coisa mais bonita que já filmei? Era um daqueles dias&#8230; alguns minutos antes de nevar. E havia uma eletricidade no ar. Quase dá pra ouvir&#8230; Este saco estava apenas&#8230; Dançando comigo&#8230; Como uma pequena criança me implorando para brincar. Por quinze minutos&#8230; E nesse dia eu percebi que havia esta grande vida por trás das coisas. E essa força incrível e benevolente queria que eu soubesse que não há razão para eu ter medo&#8230; Nunca. O vídeo é uma substituição inferior, eu sei&#8230; mas me ajuda a lembrar&#8230; eu preciso lembrar. Às vezes tem tanta beleza&#8230; neste mundo&#8230; eu sinto como se eu não pudesse suportar&#8230; e meu coração&#8230; fosse ceder.”</p>
<p class="text-align-justify">O saco estava dançando com o personagem de Ricky&#8230; as formas capturadas por Ricky compunham o idioma do seu personagem&#8230; e, como uma espécie de grande tesouro guardado, Ricky emprestava seu “jogo de formas”, ou modo de ser, à sua amiga Jane, revelando através de seu idioma “esta grande vida por trás das coisas”. A insatisfação de Ricky com a reprodução da cena no vídeo (“é uma substituição inferior”) nos faz pensar, ainda, na impossibilidade de representação da experiência estética vivenciada pelo personagem. No entanto, Ricky reconhece a qualidade da memória evocada pelas imagens&#8230; a processualidade das formas é irrepresentável e indescritível, mas pode e deve ser lembrada! Ao fim da cena Ricky se encontra totalmente tomado pela beleza registrada, e Jane, como que devolvendo a Ricky a impressão do efeito causado pelo personagem, aperta sua mão.</p>
<p class="text-align-justify"><span class="">O personagem existe como um modo de ação; e, enquanto atuação e realização há sempre uma defasagem no exercício mental que deseja apreender o efeito do </span>personagem<span class="">: “O personagem do analisando usa o analista por meio de múltiplas micro-ações que </span>in-formam<span class=""> o analista sobre o idioma do indivíduo. O desafio deste fato da vida é que não podemos expressá-lo em palavras.” A comunicação entre personagens comporta uma enorme complexidade. De acordo com o autor, numa determinada representação do próprio </span><span class="">self </span><span class="">ou de outrem, deve-se ser capaz de perceber aquilo que se apresenta inconscientemente (“forma inconsciente da narrativa”), revelando um “conhecido não pensado”. Tal como testemunha o próprio Bollas na sua relação com os amigos, não importa tanto o que se diz, quando o essencial, ou seja, “a forma do seu ser processando-se através de mim”, é inapreensível em termos de um registro puramente descritivo&#8230; Esta forma de “comunicação profunda” entre dois </span>selves, o que Bollas chamou de “interformalidade” (que não se confunde com a intersubjetividade), ganha a sua especificidade se pensarmos no contexto vivo e dinâmico da “sala de análise” (um “teatro” especialmente projetado para a expressão e reconhecimento da forma estética do personagem do analisando). Nesse sentido, cabe ao analista perceber/acolher os traços do personagem do analisando:</p>
<p class="text-align-justify">Analisar, nessa área, é engajar-se na identificação perceptiva, que é resultante do trabalho do inconsciente receptivo. Para acolher o personagem do outro, é necessária uma decisão inconsciente que permita tal acolhida por parte do recipiente. Essa decisão pode ser expressa como a inteligência da recepção, a capacidade de permitir que o self seja impressionado pelo outro. As raízes dessa capacidade são prazerosas; elas residem na relação receptiva da mãe com seu bebê, e nós levamos adiante essa relação como adultos no modo como apreciamos receber outras pessoas e o mundo dos objetos. Para envolver essa receptividade no espaço psicanalítico, o analista deve esvaziar a mente, ele precisa estar, em termos bionianos, “sem memória ou desejo”, para que a percepção inconsciente do personagem seja possível.</p>
<p class="text-align-justify">É preciso dizer também que a dimensão verbal deste encontro baseado na interformalidade, quando o analista participa da recepção do idioma do analisando, tem o seu lugar através de uma necessidade de testemunho por parte do analista. O testemunho, no sentido expresso por Bollas, não se refere às interpretações e comentários do analista sobre o analisando. Testemunhar as formas que compõem o idioma do analisando é um modo singular de estar presente e perceber a forma estética do personagem: “Indescritível, porém essencial à comunicação humana, esse fato precisa de um testemunho verbal.”</p>
<p class="text-align-justify">A escuta poética proposta pela psicanálise de Christopher Bollas é, assim acredito, um dos grandes momentos de expressão da riqueza do seu pensamento. Bollas permitiu à prática clínica (e para além dela) o acolhimento e reconhecimento de uma existência esteticamente qualificada, como fica claro nesta bela passagem:</p>
<p class="text-align-justify">As pessoas podem ser atraídas umas pelas outras devido às semelhanças em seus gostos pessoais e abordagens formais à vida, ou podem ser atraídas devido às diferenças, contudo, seja como for, numa relação formal auspiciosa, os participantes estarão fomentando uma interformalidade mais ampla, mais profunda, mais abrangente. Duas pessoas que estão intimamente ligadas uma à outra porque encontraram maneiras de se envolver com as expressões formais uma da outra. A ações podem ser poucas, as palavras silenciosas, mas haverá uma matriz de entendimentos formais. Forma a forma, de um ser para outro ser, isso é parte do conhecido não pensado. O conhecido não pensado pode ser, de fato, a base de uma jouissance do real interformal, o bem-estar do engajamento ‘sem pensamento’ entre um self e um outro.</p>
<p class="text-align-justify">O projeto psicanalítico de Bollas confere dignidade ontológica à processualidade dos encontros, sua dimensão sensível (experiência estética). Tal abertura, que aqui tentei ilustrar através do empréstimo de Bollas à forma estética/literária do personagem, é uma aposta na experiência que não se deixa achatar por conteúdos representacionais empobrecidos. E isso, vale ressaltar, não é pouco.</p>
<p class="text-align-justify"> _____________________________</p>
<p class="text-align-justify m-size-13 size-16"><span class="font-size-16 m-font-size-13">João Paulo Ayub é Psicanalista e Dr. em Ciências Sociais.</span></p>
<p class="text-align-justify m-size-13 size-16"><a class="font-size-16 m-font-size-13" href="/Users/Diva/Downloads/A%20escuta%20po%C3%A9tica%20de%20Christopher%20Bollas.docx#_ftnref1" target="_blank" rel="noopener">[1]</a><span class="font-size-16 m-font-size-13"> &#8211; Os trechos citados ao longo deste comentário foram todos retirados do ensaio “Personagem e interformalidade”. Bollas, Christopher. The Christopher Bollas Reader. Routledge, 2011.</span></p>
<p class="text-align-justify m-size-13 size-16"><a class="font-size-16 m-font-size-13" href="/Users/Diva/Downloads/A%20escuta%20po%C3%A9tica%20de%20Christopher%20Bollas.docx#_ftnref2" target="_blank" rel="noopener">[2]</a><span class="font-size-16 m-font-size-13"> &#8211;</span><span class="font-size-16 m-font-size-13"> Dark at the End of the Tunnel (2004), I Have Heard the Mermaids Singing (2005), Theraplay and Other Plays (2005), Mayhem (2005)</span><span class="font-size-16 m-font-size-13">, todos publicados pela Ed. Free Associations Books.</span></p>
<p class="text-align-justify m-size-13 size-16"><a class="font-size-16 m-font-size-13" href="/Users/Diva/Downloads/A%20escuta%20po%C3%A9tica%20de%20Christopher%20Bollas.docx#_ftnref3" target="_blank" rel="noopener">[3]</a><span class="font-size-16 m-font-size-13"> &#8211; Sobre a importante noção de idioma pessoal elaborada pelo autor: “O idioma que dá forma a qualquer caráter humano não é um conteúdo latente de significado, mas uma estética na personalidade, procurando não imprimir o significado inconsciente, mas descobrir objetos que se conjugam em uma experiência carregada de significado.” (Bollas, 1998, p. 64)</span></p>
<p class="text-align-justify m-size-13 size-16"><a class="font-size-16 m-font-size-13" href="/Users/Diva/Downloads/A%20escuta%20po%C3%A9tica%20de%20Christopher%20Bollas.docx#_ftnref4" target="_blank" rel="noopener">[4]</a><span class="font-size-16 m-font-size-13"> &#8211; Disponível em: </span><a class="font-size-16 m-font-size-13" href="https://www.youtube.com/watch?v=rJOTxTbMazs" target="_blank" rel="noopener" type="url">https://www.youtube.com/watch?v=rJOTxTbMazs</a></p>
<p class="text-align-justify m-size-13 size-16"><a class="font-size-16 m-font-size-13" href="/Users/Diva/Downloads/A%20escuta%20po%C3%A9tica%20de%20Christopher%20Bollas.docx#_ftnref5" target="_blank" rel="noopener">[5]</a><span class="font-size-16 m-font-size-13"> &#8211; “Do meu ponto de vista, o momento estético é uma ressurreição evocativa da condição egoica precoce, muitas vezes produzida por uma ressonância repentina e misteriosa com um objeto, um momento em que o sujeito é capturado por uma intensa ilusão de estar sendo escolhido pelo ambiente em alguma experiência profundamente reverente.” (Bollas, 2015, p. 73)</span></p>
<p class="text-align-justify m-size-13 size-16"><span class="font-size-16 m-font-size-13">Referências Bibliográficas:</span></p>
<p class="text-align-justify m-size-13 size-16"><span class="font-size-16 m-font-size-13">&#8211; BOLLAS, Christopher. Sendo um personagem. Rio de Janeiro: Revinter, 1998.</span></p>
<p class="text-align-justify m-size-13 size-16"><span class="font-size-16 m-font-size-13">&#8211; ______________. “The character and interformality”. In: The Christopher Bollas Reader. London/New York. Routledge. 2011.</span></p>
<p class="text-align-justify m-size-13 size-16"><span class="font-size-16 m-font-size-13">&#8211; ______________. A sombra do objeto: psicanálise do conhecido não pensado. São Paulo: Escuta, 2015.</span></p>
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